06/10/2009

Velhos hábitos.

Hoje, sozinho, em meio a trovões e relâmpagos, revisitei um velho conhecido. Pela bagatela de 7 reais pude me aconchegar no escurinho, ver trailers de filmes sem graça e um longa que, apesar do frio nome "Terror na Antártida", não passou de ser morno. Mesmo munido de pipoca e refrigerante, sentia que algo faltava à minha boca. Aquele velho hábito não me parecia mais tão habitual e, há muito, não sentia meus lábios arderem levemente pelo acúmulo de sal que se instala em suas finas ranhuras. Eu já não habito o hábito de ser só e senti como se uma parte de mim não estivesse lá. Pela primeira vez, para mim, uma sessão significou realmente a tal da meia-entrada.

09/09/2009

Nunca é o suficiente.

O melhor dos beijos, o abraço mais apertado, a noite mais encantadora, a risada mais gostosa, as frases escritas em espelhos embaçados, o carinho no ombro, o juntar dos pés, a piscadela de olhos, as mensagens mandadas, os apelidos bobos, os presentes dados, as trepadas mais ardentes, os jantares escolhidos, os telefonemas despreocupados, as viagens planejadas, as músicas cantadas junto, as mãos entrelaçadas no cinema, as noites dormidas de conchinha, os cigarros passivamente fumados, as caixas de chocolates mais saborosos, os bixos de pelúcia mais fofos, as baladas não idas, os jogos não vistos, o video-game empoeirado e o tempo dedicado a uma pessoa nunca - mesmo se unidos - são fatos maiores que um atraso repentino ou uma tampa de privada levantada.

01/09/2009

Sabe aquela sensação?

De quando os filmes bons acabam? De perder a chance de ver algo espetacular porque estava mexendo no celular? De colocar a mão no pacote e não encontrar mais nenhum biscoito? De falhar em algo que é muito bom bem na hora em que está se exibindo para alguém? De ficar pensando dias a fio naquilo que vai dizer e na hora esquecer de falar tudo aquilo? De acordar de um sonho que parecia muito real? De descobrir que está com o dente sujo depois de uma reunião? De estar escutando uma música muito legal e ela começa a pular? De espirrar e sair ranho nas mãos? De escrever um trabalho inteiro e perder o arquivo? De descobrir que sua mãe te pegou porque seu amigo dedurou? De se arrepender de ter deixado o guarda-chuva em casa e pegar uma chuva forte no meio do caminho? De quando te assaltam bem no dia que você levou a câmera ou sacou dinheiro? De chamar a galera inteira pro seu aniversário e só aparecerem 3 pessoas? De tentar postar algo no twitter e dar de cara com a baleia? De deixar seu celular cair feio por uma besteira? De abrir seu presente e ver que não era nem de perto o que você queria? De esperar por um beijo e ganhar um tchauzinho? De estar lendo um texto inteiro com todo cuidado e ele de repente

13/08/2009

Só assim

Se meu pai não tivesse ficado para o jantar naquela noite, se minha mãe não perguntasse para a amiga quem ele era, se os dois não tivessem se apaixonado, se não tivessem ido morar em um apartamento pequenino, se não tivessem tentado mesmo depois de duas gravidezes perdidas, se não tivessem me deixado rabiscar paredes, se eu não preferisse lápis de cor a ferrorama, se eu não utilizasse as contra-capas das apostilas para desenhar, se não fosse apoiado quando decidi mudar de faculdade, se não acertasse o chute na questão de atualidades, se não caísse na classe que caí, se não escolhesse criação, se o Lúcio não tivesse feito intercâmbio com a Andréa, se não trabalhasse com o Léo quando ele recebeu aquele e-mail, se não estivesse trabalhando onde trabalho agora, se não participasse daquele evento chato, se não te ligasse para te convidar para o coquetel e se o meu coração não disparasse quando te ví, aí sim, eu não teria como te amar.

02/08/2009

Mudança

Eu já estava pintando aquela paisagem tranquila há algum tempo. Um quadro enorme que, eu acreditava, já estava tomando sua forma e a agradaria. De repente, em um descuido, derrubei uma gota de tinta vermelha em meio ao céu azul. Tentei arrumar o erro, mas, a cada pincelada, o estrago se tornava maior. Me restava, então, transformar aquela paisagem tranquila em algo com mais movimento, com mais intensidade e, assim, poder aproveitar a mancha vermelha para dar a força necessitada em um quadro abstrato. O ruim é que aquilo que é abstrato, é desconhecido. E pode ser interpretado de maneira errada por aqueles que não têm olhos de ver.

30/07/2009

A tout "mis" amis

A casa era um pouco velha e, passando-se uma grade não muito difícil de passar, vez por outra podia-se vê-la rodeada pelas pessoas estranhas que ali frequentavam. O lugar, segundo relatos e memórias, havia sido palco de confrontos homéricos de Noruega contra Inglaterra, Holanda contra Itália, entre outros. O nome de inúmeras pessoas jazia rabiscado nas paredes, com tintas de todas as cores. Pela bagunça, parecia, de fato, um campo de guerra. Fui entrando aos poucos, e, depois de algum tempo, me sentia à vontade mesmo tendo que me acostumar à comida escassa, ratos ariscos, e à música incessante e repetitiva que vinha do andar de cima. Ali, abriguei-me, por diversas vezes, durante noites mal-dormidas e dias improdutivos. Fiz amizade com quatro sujeitos muito esquisitos: um, mais cabeludo, que entendia de diagramas ou algo parecido; um que sempre tinha mau-humor nas quintas-feiras pela manhã; um que tinha a memória bem curta e custava para lembrar das coisas e um último que conseguia verter em música qualquer frase ou objeto. Aprendi a conviver com estes tipos e, digo que, entre alegria e tristeza, foram de suma importância para minha sobrevivência. Mesmo frequentando ali por tanto tempo, quatro de nós sempre fingiam não saber ao certo o número da casa para dar um clima de descontração, talvez. Certo dia, deixei de ir à casa e resolvi dar uma volta nos arredores. Quando percebi, já estava longe. Como eu sabia voltar, continuei andando. Andei, andei e andei por tanto tempo, que agora eu tenho saudades e medo enormes de voltar e não ser mais aceito. E eu sei que fiquei longe por muito tempo porque a dúvida quanto ao número da casa, que antes era mera brincadeira, agora tornou-se verdadeira.

27/07/2009

Suicida

Eu estava ali, parado em meu lugar:
uma simples gota perdida em uma poça.
E foi depois de passos escutar
que avistei o rosto de uma moça

Me cativou naquele mesmo instante
com sorriso leve, cabelo evoaçante

Como poderia uma gota se apaixonar?
Como poderia a moça me notar?
Seguiram-se os dias a passar
Com ela sempre a me pisar.

Foi num fim de tarde que tudo mudou:
Da minha amada, meu olhar se separou.
Eu estava leve e comecei a flutuar
subi às nuvens, mas tudo pareceu acabar.

Ao meu lado, por alguns quilômetros
Lá estavam, como eu, tristes outros.
Tristes por não mais, nenhuma vez,
ver as que davam sabor à sua insipidez.

Com o peso de toda aquela dor
e seguido por todos os demais,
Me joguei já esperando o pior
para ali, não voltar jamais.

Quão grata foi a minha felicidade
De um suicida tornei-me um sábio
não espatifei-me sem necessidade,
pois ao final, fui morrer em seus lábios.

17/07/2009

Jogado às traças

Era uma vez um menino que caminhava por uma longa e tortuosa estrada. Ele encontrou, abandonado e jogado à beira do caminho, um cavalo todo machucado. Com dificuldade, mas com todo o carinho que lhe era tão natural, o menino levou-o para sua casa onde foi, aos poucos, oferecendo todo o amor e cuidado necessários para que o cavalo se sentisse feliz e seguro. E deu certo. Eles ficaram extremamente ligados um ao outro e, depois de algum tempo, voltaram à estrada, iniciando o caminho longo e tortuoso novamente. Após um certo período o cavalo, mesmo sentindo que era amado, com medo de que o menino o abandonasse ou o machucasse, resolveu abandoná-lo enquanto dormia. Estava reagindo antecipadamente a algo que nem sequer aconteu e que, provavelmente, jamais aconteceria. O menino, ao acordar, não encontrou o cavalo e pôs-se a chorar. E resolveu ficar parado ali, naquele local, esperando por sua volta.

Moral da história: não sei.
Ou, na verdade, eu sei, mas não entendo.

18/05/2009

Que as páginas fiquem em branco.

Não sei se é recorrente a todos que escrevem (ou tentam, como eu), mas a inspiração para tal ato é mais difícil quando se está contente. Por mais que queria escrever algo que realmente valha nos momentos em que estou feliz, não consigo. Escrevo melhor e com maior recorrência quando triste. E isso sim é, de fato, triste. Talvez isso aconteça pela eventual solidão do afeto e pela vasta companhia de pensamentos ou pelo simples motivo de querer expurgar aquela dor de variadas maneiras. Sinto-me como Poe aguardando pelo corvo a bater em minha janela - a inspiração não vem, e as palavras, não saem. Melhor que seja assim. Que enquanto feliz, eu escreva menos e sorria mais. Que o sentir da sensação de lágrimas correndo-me o rosto e o soluçar sem pudor do pescoço demorem a voltar. E que, também, eu não os veja em você.

05/05/2009

26:78 PM

Estranho pensar que à medida que passamos mais tempo com uma pessoa, tendemos a sentir mais saudades dela em intervalos cada vez mais curtos de tempo. As despedidas de um encontro já doem no descolar dos lábios e as horas para o próximo passam a ser contadas a partir daquele momento. Ficamos assim pelo simples fato de amarmos ou também porque temos medo de perder, neste lapso de olhares, aquela pessoa que nos é tão especial? Neste cenário, o ciúmes, tão comum da personalidade humana, torna-se subversivo e vil. Implacável. Só o acalento de um abraço pode acalmar o coração e a mente daqueles que são mais passionais e, aí, começa tudo de novo. Mais tempo gera mais saudade, que gera mais ciúmes, que gera mais necessidade, que demanda ainda mais tempo. Então, mesmo que a Terra passasse a ter 30 horas diárias, ou se tivéssemos todo o tempo do mundo, nunca seria o suficiente. Nunca seria suficiente porque aquilo que necessitamos quando estamos com outra pessoa, não é tempo. É amor.

30/04/2009

É proibido

É proibido chorar sem aprender,
Levantar-se um dia sem saber o que fazer
Ter medo de suas lembranças.

É proibido não rir dos problemas
Não lutar pelo que se quer,
Abandonar tudo por medo,

Não transformar sonhos em realidade.
É proibido não demonstrar amor
Fazer com que alguém pague por tuas dúvidas e mau-humor.
É proibido deixar os amigos

Não tentar compreender o que viveram juntos
Chamá-los somente quando necessita deles.
É proibido não ser você mesmo diante das pessoas,
Fingir que elas não te importam,

Ser gentil só para que se lembrem de você,
Esquecer aqueles que gostam de você.
É proibido não fazer as coisas por si mesmo,
Não crer em Deus e fazer seu destino,

Ter medo da vida e de seus compromissos,
Não viver cada dia como se fosse um último suspiro.
É proibido sentir saudades de alguém sem se alegrar,

Esquecer seus olhos, seu sorriso, só porque seus caminhos se
desencontraram,
Esquecer seu passado e pagá-lo com seu presente.
É proibido não tentar compreender as pessoas,
Pensar que as vidas deles valem mais que a sua,

Não saber que cada um tem seu caminho e sua sorte.
É proibido não criar sua história,
Deixar de dar graças a Deus por sua vida,

Não ter um momento para quem necessita de você,
Não compreender que o que a vida te dá, também te tira.
É proibido não buscar a felicidade,

Não viver sua vida com uma atitude positiva,
Não pensar que podemos ser melhores,
Não sentir que sem você este mundo não seria igual.
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Neruda, o Pablo.

14/04/2009

Engolido pelo oceano

Há que se entender, mesmo que só se escute ao fundo as notas de uma música triste, que estamos à revelia em um oceano frio e gelado. Aquele barco de papel que soltamos anos atrás, molhou-se tanto que foi se despedaçando e, por fim, caímos. Abraçar pode ter sido a última alternativa, mas foi sempre a primeira idéia. A água, que sempre me inspirou, agora era inspirada. Me afogando, bebi dois ou três goles do oceano e, então, a onda que chegou à praia, não derrubou o recém criado castelo de areia.
Por dois ou três goles.

13/04/2009

Krakoa

Estava sentado no meu quarto esses dias e vi na estante uma revista em quadrinhos que eu tinha, mas nunca havia reparado. Nela, vários personagens e cada um com um poder diferente. Comecei a pensar. Como seria ser invisível, não apenas um sem importância no meio de tantos. Como seria ter super força, não destruindo corações. Como seria soltar raios, não utilizando canetas laser. Como seria escutar pensamentos, não seguindo o o twitter dos outros. Como seria ter múltiplos de mim, não escravizando estagiários. Como seria controlar pensamentos, não sendo chefe de ninguém. Como seria saber de tudo que eu quisesse, não utilizando a internet. Como seria ser invulnerável, não sendo frio e calculista. Como seria me transformar em diversas pessoas, não utilizando de máscaras sociais. Como seria prever o futuro, não utilizando gráficos em excel. Como seria fazer os outros falarem a verdade, não lhes embebedando. Pensei então: todo super-herói utiliza seus poderes para fazer o bem, para fazer os outros felizes e percebi o maior dos poderes que alguém poderia ter: Fazer os outros felizes, não sendo um super-herói. E acho que muitas pessoas têm esse poder, mas nunca haviam reparado.

01/04/2009

Este blog morreu

Cansei de deixar escrito aqui tudo aquilo que penso, que sinto e que vivo. Cansei de escrever, enfim. Vou me dedicar a exercícios, longas corridas no parque e muito suco de cajú. Nada de sorvete, porque isso engorda. Vou começar a comer frutos porque todo mundo diz que é bom. E nada de cinema, porque descobri que odeio isso. É perder tempo e dinheiro. Prefiro ficar vendo filmes dublados na tv aberta ou trabalhando até tarde.

11/03/2009

Sobre meninos e bobos.

Um menino chora quando não tem aquilo que quer, o bobo não sabe o quer. Um menino revida à primeira agressão, o bobo agride sem motivo. Um menino reclama de tudo, o bobo não reclama do nada. Um menino corre pra baixo da saia da mãe, o bobo fica parado. Um menino coloca a culpa no outro, o bobo é o culpado. Um menino adora brincadeiras, o bobo não sabe brincar. Um menino pode machucar alguém, o bobo magoa profundamente. Um menino tem ciúmes das suas coisas, o bobo quer tudo pra ele. Um menino sobe no colo, o bobo se deixa levar. Um menino gosta ou não gosta, o bobo não experimenta. Um menino ganha uma bala, o bobo espera que a dêem para ele. Um menino se suja, o bobo faz sujeira. Um menino não coloca o casaco, o bobo não sente necessidade. Um menino ama algo por um momento, o bobo não vê que é amado.